{"id":9114,"date":"2020-05-28T10:29:13","date_gmt":"2020-05-28T10:29:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aegv.edu.pt\/bibliotecadagil\/?page_id=9114"},"modified":"2020-06-03T15:24:34","modified_gmt":"2020-06-03T15:24:34","slug":"textos-soltos","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.aegv.edu.pt\/bibliotecadagil\/textos-soltos\/","title":{"rendered":"P\u00e1ginas Soltas | Espa\u00e7o de leitura@dist\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"\n<p>Com o prop\u00f3sito de estimular o gosto pela leitura e pela escrita, a Biblioteca@dist\u00e2ncia prop\u00f5e-se, aqui, partilhar textos liter\u00e1rios integrais. Estes ser\u00e3o igualmente divulgados nas redes sociais da Biblioteca, a fim de permitir o acesso de todos \u00e0 literatura.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Texto 1<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Luta de Classes Vocabular<\/strong>    <\/p>\n\n\n\n<p>Ricardo Ara\u00fajo\nPereira, <strong>Estar Vivo Aleija<\/strong>, Edi\u00e7\u00f5es\nTinta-da-China, Lisboa, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>Certas\npalavras t\u00eam mais prest\u00edgio do que outras. A palavra desfalque olha de cima\npara a palavra roubo \u2013 e, por isso, o elegante autor de um desfalque\ndistingue-se de um vulgar ladr\u00e3o. As senten\u00e7as judiciais costumam ser bem mais\npesadas para o segundo, por pouco que ele roube, do que para o primeiro, por\nmais que ele desfalque. Ora, a minha vida decorre inteiramente num universo\nlexical desprovido de prest\u00edgio. Tirando fugazes momentos em que, no entender\nde certos operadores de telemarketing, eu sou um cavalheiro, na esmagadora\nmaioria do tempo eu sou um gajo. Todas as palavras usadas para me descrever a\nmim e ao meu mundo s\u00e3o triviais. Por exemplo, na \u00faltima ceia, como \u00e9 sabido,\nNosso Senhor Jesus Cristo bebeu por um graal. Nunca me aconteceu. Os meus\namigos e eu, quando jantamos, bebemos sempre por copos. Nunca vamos tomar uns\ngraais. S\u00e3o sempre vulgares \u2013 e, por vezes, pl\u00e1sticos \u2013 copos. Muito\nprovavelmente, tamb\u00e9m n\u00e3o terei um solene leito de morte. Como \u00e9 \u00f3bvio, durmo\nnuma cama. Devo l\u00e1 morrer. Outro exemplo: nos livros, as personagens retiram-se\ncom muita frequ\u00eancia para os seus aposentos. N\u00e3o \u00e9 o meu caso. Eu vou para o\nmeu quarto. Quando os meus pais (quando eu era pequeno), ou a minha mulher\n(agora) me p\u00f5em de castigo, \u00e9 para o quarto que me mandam.<\/p>\n\n\n\n<p>Sucede que as palavras determinam a qualidade das coisas, \u00e0s vezes vou a um desses novos restaurantes em que os pratos levam dez linhas a descrever. No meu tempo n\u00e3o era assim. Os pratos eram designados por uma palavra s\u00f3. Feijoada. Chafana. Cozido. Hoje, sinto que me falta forma\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica para almo\u00e7ar lascas de bacalhau em azeite a baixa temperatura sobre cama de pur\u00e9 de gr\u00e3o de bico e espinafres baby com redu\u00e7\u00e3o de bals\u00e2mico, alho e ervas finas. E, quando a comida chega \u00e0 mesa, descubro sempre que desfrutei mais da descri\u00e7\u00e3o do prato do que da sua ingest\u00e3o. As palavras s\u00e3o mais ricas do que a comida, mais saborosas do que a comida. O discurso sobre a comida \u00e9 melhor do que a comida, faz a comida melhor do que ela \u00e9. Na minha vida isso \u00e9 imposs\u00edvel. Palavras cruelmente banais descrevem a minha evidente banalidade. N\u00e3o hei de falecer no meu leito de morte ap\u00f3s uma noite de graais. Vou morrer na cama depois de ter estado nos copos. E j\u00e1 ser\u00e1 uma sorte.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/tintadachina.pt\/wp-content\/uploads\/ESTAR-VIVO-ALEIJA.jpg\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Texto 2<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>T\u00fanel do tempo<\/strong> <\/p>\n\n\n\n<p>Greg\u00f3rio Duvivier, <strong>Caviar \u00e9 uma ova<\/strong>, Edi\u00e7\u00f5es Tinta-da-China, Lisboa, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>Caro Greg\u00f3rio-mais-velho,<\/p>\n\n\n\n<p>Quem te escreve \u00e9 o\nGreg\u00f3rio-de-7-anos-de-idade. O motivo dessa carta \u00e9 o seguinte: percebi, por\nexperi\u00eancia pr\u00f3pria, que o tempo muda as pessoas (em geral, pra pior). A prova\ndisso \u00e9 que \u00e9 insuport\u00e1vel brincar com qualquer pessoa que tenha mais de dez\nanos de idade. A n\u00e3o ser com a vov\u00f3 Ivna, que \u00e9 o \u00fanico adulto que se diverte\nbrincando de torremoto ou aprendendo a jogar paratiparara. Mod\u00e9stia \u00e0 parte,\nacho que estou, agora, no meu auge. Fa\u00e7o toda a sequ\u00eancia do paratiparara com o\nmeu melhor amigo Rodrigo em 17 segundos. Por isso te escrevo, Greg\u00f3rio-piorado:\npara te esclarecer sobre algumas coisas que voc\u00ea tenha esquecido daqui a 20\nanos. Em primeiro lugar, nunca deixe de ouvir Beatles, e nunca ache que tem alguma\ncoisa mais legal que Beatles, porque n\u00e3o tem. Em segundo lugar, aprenda a tocar\nalgum instrumento direito. Assim, quem sabe a Fanny te d\u00e1 bola. Terceiro lugar:\nnunca deixe de brincar de torremoto. Caso voc\u00ea tenha esquecido, s\u00e3o peda\u00e7os de\nmadeira que podem virar torres, ou casas, ou carros. Ou podem ser s\u00f3 peda\u00e7os de\nmadeira, se voc\u00ea quiser jogar nos amigos. Resumindo: envelhe\u00e7a igual a vov\u00f3.\nAh, e tenha uma casa cheia de cachorros. E videogames. E de prefer\u00eancia case\ncom a Fanny. E por favor: continue melhor amigo do Rodrigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um abra\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/tintadachina.pt\/wp-content\/uploads\/CAVIAR-\u00c9-UMA-OVA.jpg\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Texto 3<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p> Tatiana Faia, <em>Um Quarto em Atenas<\/em>, Edi\u00e7\u00f5es Tinta-da-China, Lisboa, 2018. <\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:left\">A BALADA DE ANTOINE &amp; FROSTY<\/p>\n\n\n\n<p>esperei pela chuva<br>de chap\u00e9u posto<\/p>\n\n\n\n<p>quando eles se arrastaram<br>longamente pela linha<br>com o \u00edmpeto com que<br>milhas e milhas de carruagens vazias<br>entraram na esta\u00e7\u00e3o<br>estudei com cuidado e olhos m\u00edopes<br>e sem qualquer erudi\u00e7\u00e3o<br>o hor\u00e1rio em frente do meu nariz<\/p>\n\n\n\n<p>sei que n\u00e3o estou viva<br>dentro da fun\u00e7\u00e3o desta espera<br>a que ruy belo chamou<br>tempo detergente<br>e eu n\u00e3o considerei<br>coisas \u00f3bvias<br>como<br>como \u00e9 ser tu<br>ou o meu desprezo<br>pelos jogadores<br>ou concess\u00f5es dos meus amigos<br>\u00e0s conven\u00e7\u00f5es sociais<br>a posi\u00e7\u00f5es mais confort\u00e1veis<br>empregos melhores<br>em termos de progress\u00e3o de carreira<br>os gestos neutros de todos os dias<br>como se fossem um sentido<\/p>\n\n\n\n<p>Imaginei antes que nunca mais<br>te tornasse a ver<br>que algumas partidas sem retorno<br>ainda me restam<br>como balas num rev\u00f3lver<br>para um jogo de roleta russa<br>e n\u00e3o indaguei<br>&#8211; porque a humildade de um poeta<br>\u00e9 n\u00e3o esperar um troco<br>ou esperar sempre troco &#8211;<br>que trompetes<br>e clarinetes<br>haviam de arrastar-te<br>de volta a casa<br>ou se \u00e9 poss\u00edvel chegar antes<br>de qualquer pergunta<br>sabendo que o mais f\u00fanebre dos gestos<br>que me restam<br>\u00e9 este pa\u00eds<br>ou o qu\u00e3o facilmente<\/p>\n\n\n\n<p>antes do primeiro caf\u00e9<br>olhando a escurid\u00e3o da manh\u00e3<br>meditar sobre<br>os erros de ortografia de t.s.eliot<br>ou o que significa metaforicamente<br>n\u00e3o saber soletrar<br>o ar que equilibro<br>em redor de um ombro lesionado<br>e a rotina com que se desemprega<br>a mem\u00f3ria<br>e me despe\u00e7o do of\u00edcio<br>de recordar<br>porque o ligamento<br>que se rompeu<br>n\u00e3o ser\u00e1 cicatrizado<\/p>\n\n\n\n<p>esse deslocamento n\u00e3o \u00e9<br>sequer a condi\u00e7\u00e3o de este ombro<br>ou o que tu pensas que seja<br>nem este portugu\u00eas<br>ser a esp\u00e9cie de espanhol<br>que tu imaginas ser<br>uma palavra que se cala no fim<br>que vive lentamente<br>como um dia cumprido<br>e me devolve o pouco de morte que me cabe<\/p>\n\n\n\n<p>que \u00e9 como dizer durante um ano inteiro<br>n\u00e3o escrevi nada<br>nem sequer uma palavra<br>e no entanto ningu\u00e9m me costurou<br>a fala ningu\u00e9m veio ganhar de mim<br>a \u00faltima palavra<br>em termos de conversa acabada<br>o meu \u00fanico dever<br>\u00e9 capaz de ser esta esp\u00e9cie de clareza<br>ao fundo do cansa\u00e7o<br>entrever que tudo isto<br>ainda se vai conjugar<br>como um quadro de manet<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/scontent.flis9-1.fna.fbcdn.net\/v\/t1.0-9\/101200969_1576038145903474_4682773856094519296_n.png?_nc_cat=102&amp;_nc_sid=8024bb&amp;_nc_ohc=p1SwdRAL36kAX8CIejl&amp;_nc_ht=scontent.flis9-1.fna&amp;oh=4eee1873e5bb6d059061a94e3662b618&amp;oe=5EFE1EC5\" alt=\"Nenhuma descri\u00e7\u00e3o de foto dispon\u00edvel.\"\/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com o prop\u00f3sito de estimular o gosto pela leitura e pela escrita, a Biblioteca@dist\u00e2ncia prop\u00f5e-se, aqui, partilhar textos liter\u00e1rios integrais. 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Texto 1 Luta de Classes Vocabular Ricardo Ara\u00fajo Pereira, Estar Vivo Aleija, Edi\u00e7\u00f5es Tinta-da-China, Lisboa, 2018. &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/www.aegv.edu.pt\/bibliotecadagil\/textos-soltos\/\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;P\u00e1ginas Soltas | Espa\u00e7o de leitura@dist\u00e2ncia&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aegv.edu.pt\/bibliotecadagil\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/9114"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aegv.edu.pt\/bibliotecadagil\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aegv.edu.pt\/bibliotecadagil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aegv.edu.pt\/bibliotecadagil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aegv.edu.pt\/bibliotecadagil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9114"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.aegv.edu.pt\/bibliotecadagil\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/9114\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9222,"href":"https:\/\/www.aegv.edu.pt\/bibliotecadagil\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/9114\/revisions\/9222"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aegv.edu.pt\/bibliotecadagil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9114"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}